Moção "No 30º Aniversário da aquisição da Casa da Cerca - Centro de Arte Contemporânea"

A Casa da Cerca foi adquirida pela Câmara Municipal de Almada em 1988, celebrando-se no corrente ano o 30º Aniversário da vinda à posse pública do Município daquela significativa peça do património arquitetónico e cultural, cujas origens remontam aos séculos XVII/XVIII e é considerado o maior e mais característico exemplar de arquitectura civil setecentista em Almada.

Antes ainda da recuperação e restauro daquele património, a utilização pública do espaço começa em 1989, tendo aí decorrido a VI Festa de Teatro de Almada. Esse ato inaugural da atividade cultural na Casa da Cerca viria a determinar que desde essa data, todas as edições do Festival de Teatro de Almada são apresentadas ao público nas suas instalações.

Cinco anos passados sobre a aquisição do imóvel é inaugurado o Centro de Arte Contemporânea, um equipamento cultural municipal que se assume hoje como referência nacional e internacional, e que assinala em 2018 um quarto de século de abertura ao público e funcionamento ininterrupto, tendo até ao presente recebido inúmeros artistas e exposições individuais, coletivas e temáticas, sempre com reconhecida projeção nacional e internacional.

A constituição e formação de públicos apreciadores de arte e cultura desde as idades mais jovens constitui, a par da divulgação da arte contemporânea em termos gerais, um dos objetivos centrais da atividade da Casa da Cerca-Centro de Arte Contemporânea de Almada.

O seu serviço educativo, cuja atividade teve início em 1997, afirma-se hoje como projecto abrangente de grande qualidade e alcance, que oferece aos jovens a partir dos três anos, através da promoção de atividades de natureza pedagógica e lúdica em torno das exposições patentes ao público, a oportunidade para estabelecerem um primeiro contacto com actividades de criação plástica.

Em junho de 2001 é inaugurado o Jardim Botânico “O Chão das Artes”, uma iniciativa pioneira que articula as vertentes científica e artística através de um projeto inspirado no jardim tradicional português de quinta de recreio - as origens da Casa da Cerca -, um espaço que se encontra organizado em seis áreas de plantação distintas, nas quais crescem plantas utilizadas na produção de diferentes materiais aplicados nas artes plásticas, e integra ainda uma estufa e um anfiteatro ao ar livre.

À promoção da arte contemporânea através da exposição da obra de consagrados artistas de renome internacional, a Casa da Cerca-Centro de Arte Contemporânea de Almada, associa neste Jardim Botânico a investigação e o conhecimento sobre os elementos primários utilizados pelos artistas no seu processo de criação: os pigmentos extraídos flores, folhas ou rizomas, no Jardim dos Pigmentos; as gomas, extraídas de algumas árvores de fruto, no Pomar das Gomas; o rosmaninho, o alecrim, a alfazema, as papoilas, e outras espécies produtoras de óleos utilizados na pintura, no Jardim dos Óleos; o linho e o algodão utilizados para as telas, no Jardim das Telas; as madeiras para escultura ou suporte de retábulos, as terebintinas e os vernizes, na Mata; e o Jardim dos Pintores, em cujos canteiros todos os anos um pintor é homenageado, para além de uma charca e tanques onde crescem papiros e outras plantas das quais se faz papel.

Diretamente associado à atividade do Centro de Arte Contemporânea, foi instalado em 2008 o Centro de Documentação “Mestre Rogério Ribeiro”, um espaço essencialmente dedicado à investigação em torno do Desenho e de artistas portugueses contemporâneos, área vocacional específica da Casa da Cerca, contando em finais de 2017 com mais de 15.000 títulos no seu acervo documental, e que celebra este ano uma década de trabalho e apoio ao estudo.

A importância da actividade desenvolvida ao longo dos últimos 30 anos por este equipamento cultural de excelência de Almada, mas também da região e do País, é unanimemente reconhecida pelo público, e pelos artistas e criadores que têm passado pelas suas salas de exposição.

Doze desses artistas e criadores, um em cada mês do ano, testemunharam em direto a sua própria relação com a Casa da Cerca em 2013, celebrando o 25º aniversário da sua aquisição e 20º aniversário de actividade. Revisitamos os seus testemunhos que permanecem, naturalmente, muito atuais:

“O desenho da Casa é esse, um gesto que recebe e acolhe e outro que se abre a um mundo todo cheio de possibilidades”, José Luís Porfírio, em janeiro de 2013.

“Muito cedo na minha vida de artista lá expus numa mostra colectiva, e tive a agradável e honrosa surpresa de o Rogério propor a aquisição de um dos meus desenhos para a colecção da Casa. Foi a primeira colecção institucional a incluir um desenho meu”, Rui Sanches, em fevereiro de 2013.

“Esta ‘casa’, e permitam-me que a denomine assim porque é um sítio em que sinto como em casa, é um local a que volto com saudade, mas também com grande vontade de participar na sua continuidade, representando para mim um espaço de diálogo e de valorização da cultura que me conforta e motiva”, Raul Cunca, em março de 2013.

“Na Casa da Cerca encontro sempre braços abertos, que saem pelas portas, janelas e telhado e correm pelo jardim fora até ao Tejo”, Ana Vasconcelos e Mello, em abril de 2013.

“Cada vez que tenho o prazer de visitar a Casa da Cerca, sinto orgulho, como almadense, de ter este espaço tão perto de minha casa”, Miguel Matos, em maio de 2013.

“O diálogo e o entendimento com a Casa da Cerca (tão importantes, quando se trabalha com tanta responsabilidade e tão poucos meios…) têm sido eficazes e profícuos. Esta colaboração só é possível quando ambos os interlocutores têm uma visão abrangente da sua actividade, que não se vira sobre si mesma, mas que procura confrontar-se com as melhores práticas do País e do estrangeiro, para, com essa emulação, procurar evoluir”, Rodrigo Francisco, em junho de 2103.

“Em Almada, na Casa da Cerca, a Cultura venceu a suburbia:

O reino da suburbia…

… dos dias e dias automatizados, do dormir aqui e trabalhar distante, da monotonia de cenários e tempos… Almada terá sido o primeiro município da coroa suburbana da capital e libertar-se dessa condição”, Francisco da Silva Dias, em julho de 2013.

“E tem sido tudo isso e mais aquilo que todas as palavras ditas e escritas acerca dessas atividades poderão jamais ser dimensionadas e que foram e são o sonho e o amor que a Casa da Cerca tem exigido ao longo dos vinte anos da sua existência”, José Aurélio, em agosto de 2013.

“Há muito tempo conheci o Mestre Rogério Ribeiro, antes de saber que o que eu mais queria era desenhar. Sei que pensou na Cerca como espaço para o desenho se sentir em casa. Sei que quis ver os meus desenhos, apesar de eu não fazer pessoas nem casas. São desenhos de plantas e bichos, com vontade de também serem ciência. Mas também são desenho, e outros não o viram assim, e disso eu não me esqueço”, Pedro Salgado, em setembro de 2013.

“Criada num tempo em que as instituições culturais assumiram frequentemente as designações de Casa em desabono de outras, como Centro Cultural ou Museu, a Casa da Cerca dava, através do nome, uma indicação clara quanto à sua vocação. […] Criada num tempo em que tais instituições adoptaram elementos vinculados aos lugares que ocuparam e recorreram aos topónimos autênticos e a outros aspectos antropológicos caracterizadores, a Casa da Cerca comunicava, através do nome, a sua presença no universo artístico e cultural”, Laura Castro, em outubro de 2013.

“Não tendo eu uma relação directa com esse mundo das artes plásticas sou um visitante esporádico, fortuito e curioso. E tenho sempre essa mesma sensação como a da primeira vez: “que sorte isto existir na cidade em que vivo”. A cidade redimensiona-se, torna-se cosmopolita, priva com um mundo maior com conteúdos inesperados e sintoniza-se com o “momento presente”. E a Casa da Cerca tem sabido interpretar bem esse papel. Nunca, nas minhas aleatórias visitas, vi lá nada que não fosse interessante, nunca saí de lá como entrei. Saí sempre mais rico. Com o conforto de saber que alguém está ali a fazer (continuamente) um bom trabalho. E é local de visita e de cartão de visita para amigos que recebo de fora”, José Peixoto, em novembro de 2013.

“…é um lugar onde gosto imenso de estar porque é completamente dedicado à arte de que mais gosto a do Desenho, em exposições, textos, discussões, arquivo, oficinas e até um jardim desenhado pela ideia do Desenho”, Ana Leonor, em dezembro de 2013.

Assim, a Assembleia Municipal de Almada, reunida em Sessão Ordinária em 27 de fevereiro de 2018, delibera:

1. Saudar vivamente a celebração do 30º Aniversário da aquisição para o domínio público municipal do importante património arquitetónico, histórico e cultural representado pela Casa da Cerca, e os 25 anos de atividade ininterrupta de promoção das artes plásticas, em particular no domínio do Desenho, da cultura e do saber que o Centro de Arte Contemporânea instalado na Casa da Cerca desde 1993 aí vem desenvolvendo.

2. Sublinhar o extraordinário significado que a atividade desenvolvida pelo Centro de Arte Contemporânea de Almada, indelevelmente ancorada nos padrões da mais elevada qualidade artística e criativa, vem desenvolvendo desde há duas décadas e meia, e a importância que essa atividade assume no quadro da promoção da cultura, do saber e do conhecimento não apenas dos Almadenses mas de todos os portugueses, e da projeção do nome de Almada aquém e além fronteiras.

3. Expressar o mais profundo desejo e votos de que a qualidade do trabalho desenvolvido até ao presente possa ser aprofundada e melhorada ainda mais no futuro, enriquecendo assim cada vez mais o já vasto património de conhecimento e saber que proporciona a muitos e muitos milhares de cidadãos e cidadãs.

Cacilhas, 27 de fevereiro de 2018
Os Deputados Municipais da CDU

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